sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Entre uma dança e outra!

MARIANA (M) E FERNANDA (F) SÃO AMIGAS HÁ MUITO TEMPO. ELAS ACABARAM DE FUMAR UM BASEADO, COLOCARAM UMA MÚSICA ALTA E ANIMADA, E ESTÃO DANÇANDO E RINDO, CURTINDO A ONDA DELAS. ELAS CONVERSAM ALTO PARA QUE UMA POSSA OUVIR A OUTRA.

M - Eu não acredito que ele falou isso com você.

F - Eu to te falando amiga... Ele foi curto e grosso.

M - Que escroto. Oi meu amor, você é ótima, adorei te comer, mas agora quero conhecer outras mulheres.

F - Também não foi assim, mas foi isso que ele quis dizer... As entrelinhas estão ali.

M - Qual é o medo de homem com compromisso? Me deixa saber?

F - Se eu descobrir te conto!

M - Sabe o que eu queria agora?

F - O quê?

M - Ruffles com mostarda!

F - Não... Doritos com maionese!

M - Não... Mostarda com maiosene!

F - Não... Ruffles com doritos com mostarda e com maionese!

AS DUAS SE OLHAM, E RIEM DESCONTROLADAMENTE. ELAS CONTINUAM DANÇANDO.

F - Quando você era menor, e ainda não tinha beijado na boca, você praticava?

M - Como eu ia praticar se não tinha ninguém pra beijar?

F - Sei la, beijando a mão, a laranja, tentando pegar um gelo no copo de água com a língua, com uma amiga...

M - Ewwww, com uma mulher?

F - Porque ewww?

M - Sei la, é muito lésbico isso...

F - Não Não... Seria lésbico se você beijasse uma mulher com sentimento... Mas só pra praticar não quer dizer nada...

M - Isso é muito Sarah Michelle Gellar em “segundas intenções”... Não é pra mim.

F - Ai amiga, você é muito puritana...

M - Puritana eu? Quem foi que disse que não faz sexo anal porque acha nojento?

F - E quem foi que disse que não faz sexo na praia porque a areia fica entrando em lugares que não deve?

M - E quem foi que disse que nunca vai a uma casa de swing porque acha podre?

F - Mas isso é diferente, eu fui uma vez, e não gostei...

M - Amiga, você já beijou uma mulher mesmo?

F - Já... Uma vez eu acho!

M - E como foi?

F - Sei lá, foi um beijo...

M - E não foi estranho?

F - Estranho?

M - É...

F - Mas beijo é beijo... E ela beijava bem, se o beijo dela fosse ruim aí sim teria sido estranho!

M - Acho isso muito estranho!

F - Amiga eu não transei com ela não, foi um beijo e pronto.

FERNANDA SE APROXIMA DA AMIGA E LHE DÁ UM BEIJO NA BOCA. E LOGO SE AFASTAM.

M – É... Não...

F – Definitivamente não.

F - Já sei!

M - O quê?

F – Chantilly com doritos com ruffles com mostarda e com maionese!

M – Caraaaalho boto fé!

AS DUAS SAEM.
.FIM.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Reflexo.

Ela se olha no espelho e espera que o reflexo lhe dê um conselho plausível. Ela espera de um outro alguém um significado, uma resolução, e esquece de olhar para dentro de si. Por muitos anos abandonou o sentimento de amor próprio em função de uma outra pessoa. Esqueceu-se de como é amar-se. Valorizou o que achava confiável, sem entender que a maior confiança é a que existe sobre si mesma.
Ela chorou.
O reflexo no espelho tinha os olhos vermelhos de lágrimas feridas, sangrentas e amaldiçoadas. Saber o que deve fazer é substancialmente inferior a atitude que se deve tomar, mas pode ser um primeiro passo. Mas o primeiro passo é acreditar na sabedoria que brota na alma. Sem essa crença, ela continuava ali, em pé, parada na frente do espelho, nua, esperando.
Ela queria sair.
A conjulgação dos verbos em sua vida foram sempre assim, refletindo seu medo, e seu desejo momentâneo do querer. Ela não lembrava qual foi a última vez em que havia feito alguma coisa por ela. O que ela quis? Quais foram seus sonhos? Em que parte do caminho eles foram abandonados, e o pior, em que momento eles foram completamente esquecidos? Ela havia perdido o sentido de muitas coisas, mas sem o sentido de si, realmente fica dificil entrar nas portas que se abrem na vida.
Se ela tivesse que relatar sua vida para um terapeuta, ele diria que ela havia visto alguma novela mexicana, e sofria de algum disturbio de personalidade que a fazia acreditar que sua vida era a mesma das personagens na televisão. Mas ela tinha suas cicatrizes debaixo da pela clara.
Do quarto, ela pôde ouvir a chave entrando na fechadura da porta da sala. Seu corpo estremeceu. Ela olhou novamente para o espelho. Seus olhos continuavam com a dor pesada das lágrimas que caíam, ela já havia perdido a força para segurá-las dentro da alma. Seu olho direito ainda roxo, os cortes ainda molhados de sangue na boca, na testa e nos pulsos. Com os cabelos desgrenhados e hematomas espalhados pela barriga e pelas costas. O pulso enfaixado e com pontos cirúrgicos na coxa esquerda. Ela fechou a porta do guarda roupa. Seu marido entrou pela porta, abriu a sacola que tinha nas mãos, pegou um pão e jogou no chão.
"Pronto. Agora pode se alimentar. E o que aconteceu aqui, ninguém precisa saber. Até mais tarde" - e se retirou.
Ela se abaixou, pegou o pedaço de pão e comeu, sem saber quando comeria novamente.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um jornal de domingo

Assim começava todo o domingo para o jornal. Não que o de hoje seja o mesmo que aqui esteve semana passada. Talvez as coisas seriam mais fáceis se assim fosse, e a natureza certamente agradeceria. Mas eu, como narrador, me detenho apenas a contar a história deste jornal, que neste dia de domingo chuvoso, a exatamente 5:43 da manhã, estava disponível na banca de jornal, na esquina de uma rua movimentada do Rio de Janeiro. Apesar de estar tão cedo disponível para dividir conhecimento com algum transeunte que resolvesse comprar o tal jornal, ele só saiu da banca às 8:33 da manhã. Um senhor de idade, que todos os domingos pegava sua cadeira de praia, comprava seu jornal, ia para o aterro do flamengo, sentava, lia-o, conversava com um amigo ou outro que tinha o mesmo hábito, largava seu jornal perto de alguma lixeira por ali mesmo, e voltava para a casa antes do almoço que sua mulher havia cozinhado.
Naquele dia em especial, o senhor de idade se surpreendeu com as noticias que encontrou no jornal. Ele sabia da violência no país, e assim como ele, o jornal também se entristecia por ter que relatar histórias tão devastadoras e terríveis. Sim, todos sabem. Mas naquele dia, as noticias lhe saltavam aos olhos. Um menino de três anos havia sido arrastado no asfalto por quilômetros preso ao cinto de segurança durante um assalto à mão armada. Uma menina de cinco anos havia sido jogada pela janela do décimo andar de um prédio pelos próprios pais. Um menino de quinze anos havia perdido a vida, atropelado na calçada por um carro que estava praticando pega. Uma senhora chorava a perda do filho de sete anos, que morreu dentro da sala de aula por motivo de bala perdida... As noticias seguiam, e as crianças do Brasil iam sumindo diante dos olhos do senhor de idade. Ele não pôde deixar de pensar no futuro do país, e no que seria das próximas gerações. Ele pensou em como era bom nos tempos em que era criança, e brincava nas ruas, e acreditava na bondade da humanidade. Ele estava descrente e por um momento, agradeceu silenciosamente a Deus por estar tão próximo da morte. O inferno realmente é aqui, pensou o senhor de idade.
Ele tentou mudar o assunto. Procurou ler sobre cultura, leu uma reportagem que falava do poder do cinema indiano, leu sobre um artista plástico que viria expor suas pinturas no Brasil e sobre um músico muito importante que falecera vitima de um ataque cardíaco fulminante. Ele pensou em como seria bom poder morrer dormindo.
Ainda tentando esquecer as tragédias lidas anteriormente, o senhor leu alguns classificados. Alguns apartamentos à venda na tijuca... Como era bom morar na tijuca pensou o velho saudosista. Os preços, entretanto, doíam, só de olhar...
A hora passou, e o senhor de idade, com uma certa dificuldade, arrumou-se para voltar para a casa. Como de costume, deixou seu jornal próximo a um lixo que existia perto de onde estava sentado. Ele sempre pensava que, talvez alguém que não tivesse condições de comprar um jornal, poderia pegar ali o jornal dele e ler as noticias. Assim, o conhecimento continuaria seguindo seu rumo, e não terminaria nele. Era uma forma de olhar a vida!
Ele voltou para a casa, ao encontro de sua mulher que o esperava com um almoço gostoso. Ao abraçar a mulher, as coisas pareceram mais fáceis. Ele sentiu o conforto do abraço, a calma da casa, o sabor da mulher. O dia passou rápido. Ao deitar, o senhor de idade se cobriu com seu edredão, o frio realmente piorou desde a hora que havia sentado no aterro do flamengo para ler seu jornal. Ele agradeceu a vida. Ele sempre agradecia. E dormiu.
Do outro lado da rua, sem o conhecimento do senhor de idade, um menino de rua também se preparava para dormir. Ele deitou em cima de uma grande folha de papelão, e com uns jornais se cobriu do frio que fazia na noite. Antes de fechar os olhos, o menino que não tinha mãe, nem pai, nem mulher, nem sonhos, agradeceu a Deus, porque hoje, alguém deixou um jornal na beirada de um lixo no aterro do flamengo. Ele sempre agradecia. E dormiu.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Uma carta ao acordar.

... E ao acordar, encontrei essa carta.
Querido Fernando,
Eu não saberia por onde começar. Penso que o fim muitas vezes pode ser o inicio de alguma coisa nova, muito maior do que esperávamos. Não quero fazer desse meu último contato, uma carta de amor, um saudosismo qualquer de uma relação duradoura. Vivemos. Choramos, rimos, brigamos, amamos. Eu acredito que o fim é sempre invitável, independente da forma que seja.
Eu nunca menti quando disse Te amo. Nunca fingi um orgasmo. Nunca falei nada apenas para te agradar. Nunca me anulei. A sinceridade sempre foi o forte do nosso relacionamento, e a nossa cumplicidade sempre foi invejada por muitos.
Acho que estou enrolando. Enrolo-me com as palavras e fico perdida nos meus próprios pensamentos. Escrever essas palavras me dói mais do que imaginei que pudesse machucar.
Pode me chamar de convarde. Eu aceito que sou. Concordo até. Mas assim é melhor. Melhor pra mim eu sei. O egoísmo sempre foi um dos meus pontos fracos.
O que acontece... É que o amor acabou. Enquanto o amor é forte, a gente passa por cima de qualque defeito, qualquer constrangimento. É perturbador pensar que sem o amor as pessoas se tornam exclusivamente humanas. Eu choro ao imaginar que um dia você para mim foi um Deus, sem defeitos, e que eu para você talvez ainda seja. Por isso a minha covardia. Eu não conseguiria ver em seus olhos, as lágrimas de quem ainda não deixou de amar.
Não existe outro amor. Outro homem. Outro pau. Existiu você por muito tempo, até que não existiu mais. A incoerência nas minhas palavras, nada mais é, do que um reflexo da incoêrencia dos meus sentimentos e do tempo que ando pensando sobre esse assunto.
O tempo pode fazer com que você me perdoe. Ou não. As pessoas valorizam de mais o tempo, como se ele fosse um mecanismo de defesa, uma fuga para aqueles momentos em que não temos respostas. É uma forma de confortar, e confesso, foi o que tentei fazer. Mas não posso querer te abraçar nesse momento. Seria muito cruel da minha parte.
Eu espero que você fique bem. Espero que a gente se encontre pela vida, espontaneamente, e quem sabe, com o tempo, eu consiga explicar melhor o porquê de tanto desamor assim, tão abruptamente. É... as vezes até eu mesma me rendo ao tempo.
Um beijo
Luisa.
... E enquanto relia a carta, percebi algumas gotas de lágrima no papel.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Monólogos (1)

O pedido dele foi muito simples. Suas palavras saíram de forma conformada e acomodada. Talvez essa comodidade que tenha me espantado tanto. Ou, talvez tenha sido a minha própria comodidade com a relação que construímos com 20 anos de casado. É muito tempo tendo alguém do lado, compartilhando os momentos, pra simplesmente...

Há dez anos ele luta contra o câncer. Quimioterapia, radioterapia, cirurgias intermináveis, sofrimento, dor... Esperança. Semana passada a gente foi ao médico pra fazer alguns exames de rotina. A notícia não poderia ter sido pior. O câncer voltou. O diagnostico foi o suficiente pra tirar dele todo o sopro de vida que ele conquistou com o passar dos anos. Eu pude ver seu sorriso lindo se dissipar do rosto. E se eu tivesse um espelho na minha frente, talvez teria visto o meu.
A gente chegou em casa. Eu chorei escondida no banheiro, enquanto deixei a torneira aberta. Eu não posso deixa-lo triste. Não agora. Eu saí. Entrei no quarto. Ele olhava um ponto fixo no teto. Seus olhos estavam sem vida, sem lágrima, sem dor. Eu perguntei se ele queria beber alguma coisa. Se estava com fome. Se queria dar uma volta, olhar o mar. Ele negava sempre, sem precisar fazer nenhum movimento. Em um ato egoísta, que só existe naqueles que verdadeiramente amam, eu perguntei o que ele queria fazer. Qualquer coisa, para mim, seria melhor do que olhar o teto fixamente. Ele me olhou, sentou na cama e disse. Morrer.

E aí eu percebi, que esperar a morte, é pior do que lutar contra ela.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A primeira vez (Por ela)

Silvana tem 40 anos. É uma mulher vaidosa, dentro de um equilibrio já esquecido do que a vaidade é. Ela está casada há 21 anos com José Carlos. Um homem trabalhador, que para manter o padrão de vida que eles levam, precisa trabalhar muito. Está sempre em viagens, reuniões, negócios, planilhas, excel, word, computador, internet, vídeo conferência... Um stress virtual que Silvana nunca conseguiu muito entender, mas ao perceber que estava passando muito tempo longe do marido, resolveu se interessar pelas facilidades que o mundo virtual disponibiliza. Poder falar, escrever, ver a pessoa em tempo real, à distância de um clique, a fascinou. Não que ela não entendesse absolutamente nada dos últimos avanços tecnológicos, mas a verdade, é que a futilidade nas conversas com as amigas a impedia muitas vezes de conhecer melhor as coisas. Quando estamos inseridos em um sistema qualquer, é preciso primeiro abrir os olhos para que a mudança aconteça. E foi assim que Silvana começou a se separar de suas amigas fabricadas por cirurgiões e passou a se interessar mais por outras coisas na vida.
Foi a partir dessa mudança, das descobertas do mundo virtual, das fantasias sexuais abandonadas e do casamento se tornando cada vez mais um convívio minimizado de beijos sem calor e abraços sem suor, que o marido de Silvana a propôs: Vamos tentar o sexo virtual!
Ela não entendeu. José Carlos pacientemente a explicou como as coisas funcionavam. Silvana rebateu dizendo que tudo não passava de uma masturbação, e isso ela pode fazer debaixo do chuveiro, sozinha, pensando em Antônio Fagundes (Ela tinha uma queda por Antônio Fagundes difícil de explicar). José Carlos tentou. Explicou. Desenhou. Respondeu. Mas nada adiantou.
José Carlos viajou, e devido a algumas complicações foi obrigado a ficar na cidade mais tempo do que desejava. E assim tinha dito a Silvana. Mas eu estou com saudades, dizia a mulher com tom carinhoso e solitário. Eu também.
Os dias passaram, e por incrível que pareça, os encontros de Silvana com o chuverinho do banheiro pensando em Antônio Fagundes não estavam mais surtindo efeito. Foi pensando no próprio marido, certa noite, que ao entrar na internet e encontrá-lo on line, em um programa de mensagens instântaneas Silvana disse: Vamos tentar o tal sexo virtual?
José Carlos respondeu um SIM com uma quantidade de Is incontáveis. Silvana ainda achava o máximo as tentativas de expressar alegria ou qualquer outro sentimento através de palavras no mundo virtual. E assim começaram.
Ela não sabia por onde começar. Pediu para que o marido falasse alguma coisa. Ele começou dizendo que os dois estavam em uma cabana, na beira do mar, em uma ilha deserta, com a brisa batendo nos seus corpos nus. Silvana logo pensou na quantidade de mosquitos que possivelmente teria naquela ilha deserta, e disse para ela mesma, que por favor, eles não tentassem nada na areia. Ela nunca aceitou muito bem o sexo na areia da praia como algo bom, aquela areia entrando em lugares que não deveriam... E José Carlos propôs que eles deitassem na areia e começassem a se beijar.
Silvana embarcou, mesmo não gostando da idéia. Mas tudo não passava de um grande jogo de imaginação. Talvez a areia dessa praia não tivesse vida própria e ficaria lá. Na praia mesmo. E não dentro dela.
O diálogo continuou. José Carlos disse que já estava com o pau duro, para fora da calça e perguntou a Silvana se ela também estava nua, com a mão em sua buceta. Silvana nunca gostou dessa palavra. Por algum motivo que ela nunca compreendeu "buceta" a deixava um pouco enfurecida. Ela se sentia rebaixada a uma puta que pagaram 10 reais para fuder, e que a tratavam de maneira grossa e estúpida, e ela tinha que aceitar. Ela ficou um pouco nervosa quando seu marido usou a palavra. Mas por um momento tentou entender, e percebeu que se ele estivesse escrito vulva, ou piriquita, todo o clima de sexo teria ido por água abaixo. Ela mentiu. Ela estava completamente vestida, mas disse que sim. Ela já havia mentido algumas outras vezes sobre ter alcançado o orgasmo durante o sexo, e uma mentirinha a mais não faria mal. Ela queria saber até aonde aquela brincadeira ia. E queria saber se ela se permitiria chegar aonde seu marido estava propondo ir.
O papo continou. E conforme as linhas da caixa de diálogos na tela do computador iam aumentando, Silvana se interessou pela coisa. Foi se deixando levar. Subiu um calor em seu corpo, um calor que nem mesmo os pensamentos em Antonio Fagundes lhe davam. Foi aí que ela pensou que talvez seria agrádavel tirar a roupa, ficar nua, e se masturbar, na frente da tela do computador, lendo todas as coisas que seu marido estava dizendo. Ela se despiu. Sentou na frente do computador e foi ler a última coisa que seu marido havia dito: Gozei. E você?
Silvana mentiu. Uma mentirinha a mais não faria diferença, pensou ela. Ela caminhou até o banheiro. Dessa vez pensou no marido. Pensou em como talvez para ele teria sido ótimo a primeira vez dos dois à distância. E depois pensou, assim como a primeira vez física para ela também não havia sido boa, talvez as próximas virtuais seriam.

sábado, 31 de julho de 2010

No domingo.

O sol entrava pela janela do meu quarto me convidando para sair, espairecer a mente, relaxar após um final de semana. Domingo é o dia de descanso por um grande motivo: Vem depois do Sábado. A verdade é que eu só tive força para sair de casa depois das três horas da tarde.
Comprei meu jornal. Eu sou um leitor que acompanha as notícias do brasil e do mundo pelos jornais de domingo, e fui para a praia. Eu sempre gostei de relaxar na praia, ver o mar, as pessoas saudáveis, o caminhar das mulheres de biquini. E consequentemente ler meu jornal. Confesso que as noticias se perdem no emaranhado de acontecimentos, e nesse domingo, foi especial.
Ao chegar no calçadão da praia do aterro do flamengo, procurei uma sombra confortável onde eu pudesse colocar minha cadeira. Sentei. Arrumei-me. Abri meu jornal, e comecei a ler. A brisa refrescava ainda mais a sombra que eu tinha escolhido, e o calor não me incomodava.
No momento em que comecei a ler as notícias, reparei em Dona Marta. Ela era uma mulher gorda, suas roupas eram largas, e sua maneira de se posicionar era completamente espalhafatosa. Ela não só falava extremamente alto, como gesticulava fora do normal, deixava suas coisas completamente espalhadas, e cumprimentava todos que passavam. Ou melhor, todos que tinham cachorros.
Ela estava lá com seu melhor amigo. Eventualmente, eu descobri que o nome dele era Jonny. Assim como descobri que seu nome era Marta. É incrível as coisas que você descobre de uma pessoa se parar para prestar atenção. Dona Marta vivia sozinha e Jonny era seu melhor amigo. Não de uma maneira simpática de chamar o animal, mas realmente o melhor amigo. Jonny havia ficado doente alguns dias atrás, e foi preciso dar a ele soro na veia. Ele ficou internado por dois dias. Jonny gostava de brincar com um boneco que era da filha de Dona Marta. Ele também tinha horários para comer, e naquele momento, era hora. Ela tirou a comida dele de dentro de uma bolsa gigante que ela carregava, abriu o pote e colocou ao alcance do animal. Jonny comeu com uma voracidade incrível.
Enquanto Dona Marta esperava seu amigo comer, ela conversava com uma, elogiava o cachorro da outra, e assim que esta ia embora, falava para uma amiga que o Jonny era mais bonito. Ela inclusive, comprou coca cola para o bichinho beber, simplesmente porque era domingo e ele podia estrapolar.
Eu não saberia dizer se ela conhecia realmente todo mundo que passava naquele calçadão, ou se apenas era do seu feitio fazer amizade facilmente com todos que passavam. Mas assim ela ficava, falando com um, brincando com outro, preocupada com Jonny. O incrível, é que em todos os assuntos, ela começava falando: "Mas aí o Jonny...", "O Jonny faz isso",... "O Jonny aquilo"...
Ele era o astro e como se soubesse disso, se impunha hora latindo para outro cachorro, hora sentado na pose mais ereta possivel.
Eu nem percebi quando o relógio mostrava que eram cinco horas da tarde. Eu apenas me dei conta porque Dona Marta, esperta que só ela, sabia que nos domingos, as seis horas, Jonny gostava de ver televisão. Era algum canal de desenhos que Jonny adorava, e se não visse, ficava de mau humor! E assim, Dona Marta se despediu de alguns amigos. Recém conhecidos ou não, ela os abraçou, deu três beijinhos e disse "Até domingo que vem!".
Eu não pude deixar de pensar sobre Dona Marta no caminho para a casa. Se eu talvez fosse um narrador omnisciente, talvez eu relataria sua chegada em casa, com poucos móveis, a cama do Jonny arrumada, as coisas dele meticulosamente arrumadas em um armário especial para o cachorro. Diria ainda que assim que chegou em casa, Dona Marta ligou a televisão, colocou Jonny no sofá com um cobertor para deixá-lo bem quentinho, e colocou no canal de desenho. Perguntou ao amigo se estava confortável e sabiamente recebeu como resposta um sim. Dona Marta então veria o desenho, esperaria Jonny dormir para levá-lo para a cama, e deitaria, à espera do dia seguinte, onde teria que acordar bem cedo para levar o seu melhor amigo para passear.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O elevador

João mora em um prédio com 20 andares. Ele vive no décimo quinto. É um desses prédios com vários andares e 10 apartamentos por andar. O prédio é relativamente novo, e mesmo morando nele há 3 anos, a cada dia que passa ele sente-se como um novo morador. Os rostos das pessoas nunca são os mesmos. Ele sente falta de quando criança ter relacionamentos com vizinhos, conhecê-los bem, ter vizinhos que são amigos. Ele estava por ali, e por ali estavam os outros moradores, co-existindo em um mesmo ambiente. E foi nesse mesmo ambiente, em um dia de inverno qualquer, que a vida surpreendeu João.
Ele voltava de um encontro com alguns amigos. Ele estava leve, feliz, com a felicidade de quem sai de um encontro agradável, com pessoas agradaveis, e certo de que tem amigos para todo o sempre. Uma dessas felicidades em que um riso aparece nos lábios só de pensar na forma como fulano contou uma piada, ou cicrano ficou bêbado e te disse "Cara, você é foda!".
Absorto por esses pensamentos, a porta do elevador se abriu. João entrou, apertou o número quinze, e esperou que as portas se fechassem. Ao fundo ele ouviu o caminhar sôfrego de um salto alto. O "tac-tac" do salto o impulsionou a segurar a porta do elevador. Ele sabia que seria desumano fazer o salto alto esperar que ele fosse até o décimo quinto andar, para que a caixa de metal pudesse descer novamente, e assim levá-la onde quer que fosse. A mulher então apareceu. Entrou no elevador. Apertou o número 17. Olhou para João e disse "Boa noite". E a porta se fechou!
João nunca foi desses homens de conversar no elevador. Ele sempre achou inútil a tentativa. Nenhum assunto que começasse no térreo, terminaria a tempo do elevador chegar ao destino, a não ser falar sobre o frio ou o calor... "E esse calor hein? Parece que vai continuar quente assim até semana que vem". Plim. Chegou. "Tchau, tenha um bom dia".
Inútil.
Por isso, ao fecharem as portas do elevador, a mulher disse "Boa noite". E João respondeu educadamente "Boa noite".
No primeiro andar, a mulher tirou os óculos escuros que usava, e a estranheza do uso deles se explicou. Ela chorava. No momento em que os olhos vermelhos da mulher de salto alto cruzou com o olhar alegre de João, a mulher disse "Que dia horrível".
João não sabia o que fazer. Ele abaixou o olhar. Ainda faltavam 14 andares. Ele não conhecia a mulher. Tudo que ele sabia é que ela gostava de usar sapatos de salto alto, havia chorado e tivera um dia horrível. Qualquer palavra que lhe brotara na boca parecia ter saído de um livro de auto ajuda fajuto, desses que ninguém lê. O distanciamento muitas vezes nos impede de sermos mais humanos. João viu a solidão da mulher. O fato de alguém abordar um estranho no elevador e dizer que teve um dia horrível, nada mais é, do que uma tentativa de poder se abrir. Mas João não conseguia lidar com aquela situação, com aquela mulher à sua frente. Ele, que acabara de estar rodeado de amigos, certo de que poderia contar com qualquer um deles para qualquer coisa, até mesmo ligar ao final do dia para dizer "Que dia horrível!" e teria assim um ouvido para desabafar. E aquela mulher ali, com olhos de choro, querendo se abrir. Talvez ela não tivesse ninguém. Ou se tivesse, talvez não tinha abertura para falar.
A vontade de ajudar aquela mulher petrificou, diante de sua própria incapacidade de se abrir com os outros. A vulnerabilidade para João era uma maldição. E perceber essa maldição o tornava mau. Ele não queria ser mau. Não queria ser assim.
Plim. Décimo quinto. A porta se abriu.
João precisava se redimir pelos quatorze andares de silêncio externo que ele fez a mulher passar. porque internamente, foi uma gritaria. Ele precisava de uma redenção. Precisava ser bom outra vez.
"A senhora quer um abraço?" - Ele disse antes de sair do elevador.
"Não, está tudo bem. Não se preocupe. Obrigada."
João saiu. A porta se fechou. A mulher continuou seu caminho. João parou, pensou, e antes de entrar em casa, percebeu que talvez a mulher não fosse tão solitária quanto ele pensou. E que talvez, um simples comentário de um livro de auto ajuda fajuto, desses que ninguém lê, era o que ela precisava.

Um caso moderno

O inicio foi diferente dos contos amorosos que ouvimos por aí, ou que lemos em livros e vemos pela televisão. Não existiu uma troca de olhares, uma música lenta, um frenesi alucinante de quem vê pela primeira vez o amor de sua vida. As coisas foram mais modernas do que podemos imaginar.
O primeiro contato deles foi algo singelo. Sem grandes diálogos marcantes, conversas inteligentes e frases de impactos. Não houve uma troca de telefones, e o contato se seguiu pela internet. Ele a adicionou no facebook, no orkut e no msn. As conversas inicialmente eram estranhas para ela. Ela é uma dessas meninas que sempre tem o homem que quer, e poder escolher a dedo o que realmente quer, é um privilégio de poucas, mas que ela agradecia diariamente. Mas ele insistiu.
A convidou para uma festa, ela negou. Um samba na lapa e ela negou. Um cinema e ela mentiu dizendo que já havia visto o filme. Certo dia, eles se encontraram, como que por acaso, em uma boate na zona sul do Rio de Janeiro. Quando a gente fala que o mundo é pequeno, é porque ele realmente é... Para aqueles que procuram!
Ele a rondou a noite toda. Pediu. Implorou. Insistiu. E novamente fazendo uso de frases de efeitos que, eu sei, são clichês muito grandes, ele a venceu pelo cansaço. Nada muito marcante. Mas ficou. Ele adorou. Continuou sua insistência. O carinho e afeto do primeiro encontro, aumentou com o passar do tempo, e com isso, ele não conseguia mais ficar sem pensar nela. E assim ficaram, por um tempo. Ele insistindo, ela fugindo.
O sim, para um cinema, surgiu um mês depois do primeiro beijo. Ela estava carente, e ele, todo atencioso, soube aproveitar o momento. Depois disso, os encontros foram aumentando, o carinho dele por ela se tornou recíproco, e eles começaram a namorar. Ah... O amor tem esse poder sobre as pessoas...
Durou um ano e meio. Ela ama. De verdade.
Ele também ama, mas não a ela.
Hoje, quem chora a perda é ela, enquanto ele, segue a vida, com uma outra mulher, feliz da vida, e sem ela entre os seus amigos do facebook ou msn.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A fila.

Na rua onde eu moro, em determinada hora do dia, geralmente quando já é noite, começa a se formar uma fila em frente a um portão de uma casa. Esse acontecimento sempre me intrigou. Não existe um letreiro, propaganda, tumulto, absolutamente nada. São pessoas em fila, quietas, tranquilas, algumas lendo um livro, outras conversando no celular em tom absurdamente baixo, outras apenas ali, paradas, imóveis. Por muitas vezes, ao caminhar por ali, eu pensei em parar e perguntar a alguma daquelas estátuas o porquê da fila. Mas sabe essas barreiras invisiveis que se criam? Era como aquela fila. Não existia uma abertura para tal pergunta, assim como aparentemente, não existia abertura para um desconhecido entrar nela.
Movido por uma força maior do que a minha própria razão e por um sentimento de desconforto, mais conhecido como curiosidade, certa noite, ao passar por aquele lugar, parei atrás de uma senhora que lia um livro. À sua frente havia uma mala grande, visivelmente pesada pela forma irregular com que a mala se firmava no chão. E fiquei ali. Imóvel. Assim como todos os outros.
Após alguns minutos na fila, um homem, por volta dos seus 60 anos parou atrás de mim, e junto com ele uma menina, com seus 19. Ela me chamou a atenção. Não por ser bonita, o que realmente não era, mas pela tristeza nos olhos. Era como se ela estivesse chorando e no entanto, nenhuma lágrima escorria. Parecia que a fonte havia secado de tanto chorar. E assim o homem a abraçou, e ficaram assim, parados.
De repente, a fila começou a andar. Muito lentamente. Entrava uma pessoa e a fila parava. Entrava mais uma e a fila parava. Minutos depois saía o primeiro e entrava o terceiro. Com um tempo, o caminhar da fila se tornou algo ritmado, e eu pude perceber que a tristeza que antes me chamou a atenção na possível neta do senhor de idade, estava presente nos olhares de todas aquelas pessoas. É muito ruim não saber o nome das pessoas que passam pela sua vida, e assim, elas se tornam números, possíveis netas e avôs, estátuas.
Aquilo me incomodou. Pensei se todo o motivo da minha curiosidade estava ligado ao fato de eu também ter a mesma tristeza nos olhos, e a curiosidade do porquê da fila, nada mais seria do que uma mentira para me juntar, ao que posso chamar, dos meus semelhantes. O pensamento me desnorteou. Eu não queria ser uma daquelas pessoas que esperam em filas o momento em que talvez encontrem respostas para suas aflições. Eu não queria ser mais um desconhecido em meio a estranhos imóveis. A solidão já é incômoda quando estamos realmente sozinhos, mas sentir esse desconforto em meio a um monte de gente é insuportável.
Percebi que a mulher que lia um livro com a mala gigante e pesada entrou. O décimo quinto estava saindo. Ao ver que era a minha hora de entrar na luz, me retirei. Deixei passar a possível neta com seu avô. E fui andando para frente. Sem olhar pra trás.
Desde então, nunca mais vi a fila que antes me incomodava.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

E se a vida fosse um filme?

Eu tenho esse costume rotineiro de alimentar teorias e viver elas por um momento. Permito-me deixar a imaginação fluir de tal modo, que ás vezes demoro em voltar a realidade. E em uma dessas divagações, pensei em como seria se a vida fosse como um filme.
Eu levantaria com a cara limpa, sem remela, sem bafo matinal, sem mau humor e sem problemas. O quarto estaria sempre escuro, eu abriria as janelas e o sol entraria. Todas as manhãs pareceriam um dia comum de domingo. Eu não perderia tempo me arrumando, porque no próximo corte eu já estaria no meu destino. No trabalho, no final do exercício físico completamente suado, no final de uma conversa chata, no inicio de um momento agradável e inesquecível...
Eu teria música. O som subiria nos momentos mais propícios e assim eu nunca ficaria sozinho. No primeiro beijo a música seria romântica, nos momentos felizes ela seria animada, nos tristes melancólica, no cotidiano uma dessas músicas agradáveis de se ouvir que te dão ânimo de caminhar por horas e horas...
Eu sempre teria assunto. Os momentos, por mais embaraçosos que parecessem, seriam salvos, ou por mim, ou por alguém. Quer seja um amigo que chegaria no momento certo, quer seja um estranho que faria alguma coisa que distraísse a atenção para aquele momento inoportuno...
Os encontros seriam geniais. Não digo nem geniais porque seriam bons... Porque sim, encontros ruins também acontecessem em filmes, mas mesmo assim, no final das contas, tudo dá certo, e eu terminaria com a mocinha, de braços dados, caminhando para o pôr-do-sol...
Apesar de tantos pontos positivos, não pude deixar de pensar mais, e perceber, que eu não teria a felicidade. O meu final feliz terminaria antes de realmente acontecer. Os finais felizes são sempre interrompidos por créditos, ou citados de alguma maneira superficial.
E mesmo com alguns clichês cinematográficos, aparentemente atraentes e “reais”, a verdade, é que a vida é a vida. Ficcioná-la é um simples ato de criatividade e imaginação.

À quem possa interessar...

Querido Alguém,


Hoje eu resolvi vir a seu encontro. Ouvi suas lágrimas de solidão no canto escuro do quarto. Eu venho assim, por vontade própria... Não tente me chamar e nem tente se desfazer de mim quando se cansar. Eu venho apenas para te mostrar a importancia e a força do amor.
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Não precisa chorar, mas se isso te acalmar a alma, que chore o tempo que precisar. Não alimente as tristezas e os sentimentos ruins. A vida é feita de escolhas. Para cada sim existe um não. Tome as melhores decisões, mas não lamente as precipitadas ou erradas, cabe a você mudar a sua situação. Lembre que o hoje é um resultado do sim, ou não de ontem.
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Eu não estou aqui para te fazer chorar, ou entristecer-te. Sorria. Sorria com toda a força que puder. Sorria sempre. Abrace mais. Ame... Mas tenha fé. No que quer que seja. Apenas acredite em algo. Em alguém. Se eu te pressionar muito, e o seu sorriso se dissipar, você terá pra onde correr. Aonde se apoiar. Seja bom!
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Eu não sou sábio. Nem culto. Eu não entendo as complexidades humanas. Eu conheço o poder do amor, mas confesso que nao o entendo muitas vezes. A verdade é que não adianta querer racionalizar tudo. Algumas coisas foram feitas para serem sentidas.
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Saia mais. Espairecer a mente é uma ótima tentativa de me mandar embora. Pelo menos, uma ótima forma de ilusão. Mas isso já é uma coisa boa. Acredite.
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Seja sempre você. Seja verdadeiro e honesto. Afinal, quando a cabeça encostar no travesseiro, é você com você mesmo, é aí que a verdade sempre virá a tona, e é aí que ela faz mais estragos, ou maravilhas... Depende de quem você é!
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Os meus conselhos não passam de palavras tagarelantes. Me ouça. Ou Não. Quer queira, quer não, eu estarei diariamente do seu lado. Faça o que você achar melhor. Como eu já disse, a vida é feita de escolhas...



Assinado: SAUDADE