segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Reflexo.

Ela se olha no espelho e espera que o reflexo lhe dê um conselho plausível. Ela espera de um outro alguém um significado, uma resolução, e esquece de olhar para dentro de si. Por muitos anos abandonou o sentimento de amor próprio em função de uma outra pessoa. Esqueceu-se de como é amar-se. Valorizou o que achava confiável, sem entender que a maior confiança é a que existe sobre si mesma.
Ela chorou.
O reflexo no espelho tinha os olhos vermelhos de lágrimas feridas, sangrentas e amaldiçoadas. Saber o que deve fazer é substancialmente inferior a atitude que se deve tomar, mas pode ser um primeiro passo. Mas o primeiro passo é acreditar na sabedoria que brota na alma. Sem essa crença, ela continuava ali, em pé, parada na frente do espelho, nua, esperando.
Ela queria sair.
A conjulgação dos verbos em sua vida foram sempre assim, refletindo seu medo, e seu desejo momentâneo do querer. Ela não lembrava qual foi a última vez em que havia feito alguma coisa por ela. O que ela quis? Quais foram seus sonhos? Em que parte do caminho eles foram abandonados, e o pior, em que momento eles foram completamente esquecidos? Ela havia perdido o sentido de muitas coisas, mas sem o sentido de si, realmente fica dificil entrar nas portas que se abrem na vida.
Se ela tivesse que relatar sua vida para um terapeuta, ele diria que ela havia visto alguma novela mexicana, e sofria de algum disturbio de personalidade que a fazia acreditar que sua vida era a mesma das personagens na televisão. Mas ela tinha suas cicatrizes debaixo da pela clara.
Do quarto, ela pôde ouvir a chave entrando na fechadura da porta da sala. Seu corpo estremeceu. Ela olhou novamente para o espelho. Seus olhos continuavam com a dor pesada das lágrimas que caíam, ela já havia perdido a força para segurá-las dentro da alma. Seu olho direito ainda roxo, os cortes ainda molhados de sangue na boca, na testa e nos pulsos. Com os cabelos desgrenhados e hematomas espalhados pela barriga e pelas costas. O pulso enfaixado e com pontos cirúrgicos na coxa esquerda. Ela fechou a porta do guarda roupa. Seu marido entrou pela porta, abriu a sacola que tinha nas mãos, pegou um pão e jogou no chão.
"Pronto. Agora pode se alimentar. E o que aconteceu aqui, ninguém precisa saber. Até mais tarde" - e se retirou.
Ela se abaixou, pegou o pedaço de pão e comeu, sem saber quando comeria novamente.

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