Assim começava todo o domingo para o jornal. Não que o de hoje seja o mesmo que aqui esteve semana passada. Talvez as coisas seriam mais fáceis se assim fosse, e a natureza certamente agradeceria. Mas eu, como narrador, me detenho apenas a contar a história deste jornal, que neste dia de domingo chuvoso, a exatamente 5:43 da manhã, estava disponível na banca de jornal, na esquina de uma rua movimentada do Rio de Janeiro. Apesar de estar tão cedo disponível para dividir conhecimento com algum transeunte que resolvesse comprar o tal jornal, ele só saiu da banca às 8:33 da manhã. Um senhor de idade, que todos os domingos pegava sua cadeira de praia, comprava seu jornal, ia para o aterro do flamengo, sentava, lia-o, conversava com um amigo ou outro que tinha o mesmo hábito, largava seu jornal perto de alguma lixeira por ali mesmo, e voltava para a casa antes do almoço que sua mulher havia cozinhado.
Naquele dia em especial, o senhor de idade se surpreendeu com as noticias que encontrou no jornal. Ele sabia da violência no país, e assim como ele, o jornal também se entristecia por ter que relatar histórias tão devastadoras e terríveis. Sim, todos sabem. Mas naquele dia, as noticias lhe saltavam aos olhos. Um menino de três anos havia sido arrastado no asfalto por quilômetros preso ao cinto de segurança durante um assalto à mão armada. Uma menina de cinco anos havia sido jogada pela janela do décimo andar de um prédio pelos próprios pais. Um menino de quinze anos havia perdido a vida, atropelado na calçada por um carro que estava praticando pega. Uma senhora chorava a perda do filho de sete anos, que morreu dentro da sala de aula por motivo de bala perdida... As noticias seguiam, e as crianças do Brasil iam sumindo diante dos olhos do senhor de idade. Ele não pôde deixar de pensar no futuro do país, e no que seria das próximas gerações. Ele pensou em como era bom nos tempos em que era criança, e brincava nas ruas, e acreditava na bondade da humanidade. Ele estava descrente e por um momento, agradeceu silenciosamente a Deus por estar tão próximo da morte. O inferno realmente é aqui, pensou o senhor de idade.
Ele tentou mudar o assunto. Procurou ler sobre cultura, leu uma reportagem que falava do poder do cinema indiano, leu sobre um artista plástico que viria expor suas pinturas no Brasil e sobre um músico muito importante que falecera vitima de um ataque cardíaco fulminante. Ele pensou em como seria bom poder morrer dormindo.
Ainda tentando esquecer as tragédias lidas anteriormente, o senhor leu alguns classificados. Alguns apartamentos à venda na tijuca... Como era bom morar na tijuca pensou o velho saudosista. Os preços, entretanto, doíam, só de olhar...
A hora passou, e o senhor de idade, com uma certa dificuldade, arrumou-se para voltar para a casa. Como de costume, deixou seu jornal próximo a um lixo que existia perto de onde estava sentado. Ele sempre pensava que, talvez alguém que não tivesse condições de comprar um jornal, poderia pegar ali o jornal dele e ler as noticias. Assim, o conhecimento continuaria seguindo seu rumo, e não terminaria nele. Era uma forma de olhar a vida!
Ele voltou para a casa, ao encontro de sua mulher que o esperava com um almoço gostoso. Ao abraçar a mulher, as coisas pareceram mais fáceis. Ele sentiu o conforto do abraço, a calma da casa, o sabor da mulher. O dia passou rápido. Ao deitar, o senhor de idade se cobriu com seu edredão, o frio realmente piorou desde a hora que havia sentado no aterro do flamengo para ler seu jornal. Ele agradeceu a vida. Ele sempre agradecia. E dormiu.
Do outro lado da rua, sem o conhecimento do senhor de idade, um menino de rua também se preparava para dormir. Ele deitou em cima de uma grande folha de papelão, e com uns jornais se cobriu do frio que fazia na noite. Antes de fechar os olhos, o menino que não tinha mãe, nem pai, nem mulher, nem sonhos, agradeceu a Deus, porque hoje, alguém deixou um jornal na beirada de um lixo no aterro do flamengo. Ele sempre agradecia. E dormiu.
Naquele dia em especial, o senhor de idade se surpreendeu com as noticias que encontrou no jornal. Ele sabia da violência no país, e assim como ele, o jornal também se entristecia por ter que relatar histórias tão devastadoras e terríveis. Sim, todos sabem. Mas naquele dia, as noticias lhe saltavam aos olhos. Um menino de três anos havia sido arrastado no asfalto por quilômetros preso ao cinto de segurança durante um assalto à mão armada. Uma menina de cinco anos havia sido jogada pela janela do décimo andar de um prédio pelos próprios pais. Um menino de quinze anos havia perdido a vida, atropelado na calçada por um carro que estava praticando pega. Uma senhora chorava a perda do filho de sete anos, que morreu dentro da sala de aula por motivo de bala perdida... As noticias seguiam, e as crianças do Brasil iam sumindo diante dos olhos do senhor de idade. Ele não pôde deixar de pensar no futuro do país, e no que seria das próximas gerações. Ele pensou em como era bom nos tempos em que era criança, e brincava nas ruas, e acreditava na bondade da humanidade. Ele estava descrente e por um momento, agradeceu silenciosamente a Deus por estar tão próximo da morte. O inferno realmente é aqui, pensou o senhor de idade.
Ele tentou mudar o assunto. Procurou ler sobre cultura, leu uma reportagem que falava do poder do cinema indiano, leu sobre um artista plástico que viria expor suas pinturas no Brasil e sobre um músico muito importante que falecera vitima de um ataque cardíaco fulminante. Ele pensou em como seria bom poder morrer dormindo.
Ainda tentando esquecer as tragédias lidas anteriormente, o senhor leu alguns classificados. Alguns apartamentos à venda na tijuca... Como era bom morar na tijuca pensou o velho saudosista. Os preços, entretanto, doíam, só de olhar...
A hora passou, e o senhor de idade, com uma certa dificuldade, arrumou-se para voltar para a casa. Como de costume, deixou seu jornal próximo a um lixo que existia perto de onde estava sentado. Ele sempre pensava que, talvez alguém que não tivesse condições de comprar um jornal, poderia pegar ali o jornal dele e ler as noticias. Assim, o conhecimento continuaria seguindo seu rumo, e não terminaria nele. Era uma forma de olhar a vida!
Ele voltou para a casa, ao encontro de sua mulher que o esperava com um almoço gostoso. Ao abraçar a mulher, as coisas pareceram mais fáceis. Ele sentiu o conforto do abraço, a calma da casa, o sabor da mulher. O dia passou rápido. Ao deitar, o senhor de idade se cobriu com seu edredão, o frio realmente piorou desde a hora que havia sentado no aterro do flamengo para ler seu jornal. Ele agradeceu a vida. Ele sempre agradecia. E dormiu.
Do outro lado da rua, sem o conhecimento do senhor de idade, um menino de rua também se preparava para dormir. Ele deitou em cima de uma grande folha de papelão, e com uns jornais se cobriu do frio que fazia na noite. Antes de fechar os olhos, o menino que não tinha mãe, nem pai, nem mulher, nem sonhos, agradeceu a Deus, porque hoje, alguém deixou um jornal na beirada de um lixo no aterro do flamengo. Ele sempre agradecia. E dormiu.
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