Na rua onde eu moro, em determinada hora do dia, geralmente quando já é noite, começa a se formar uma fila em frente a um portão de uma casa. Esse acontecimento sempre me intrigou. Não existe um letreiro, propaganda, tumulto, absolutamente nada. São pessoas em fila, quietas, tranquilas, algumas lendo um livro, outras conversando no celular em tom absurdamente baixo, outras apenas ali, paradas, imóveis. Por muitas vezes, ao caminhar por ali, eu pensei em parar e perguntar a alguma daquelas estátuas o porquê da fila. Mas sabe essas barreiras invisiveis que se criam? Era como aquela fila. Não existia uma abertura para tal pergunta, assim como aparentemente, não existia abertura para um desconhecido entrar nela.
Movido por uma força maior do que a minha própria razão e por um sentimento de desconforto, mais conhecido como curiosidade, certa noite, ao passar por aquele lugar, parei atrás de uma senhora que lia um livro. À sua frente havia uma mala grande, visivelmente pesada pela forma irregular com que a mala se firmava no chão. E fiquei ali. Imóvel. Assim como todos os outros.
Após alguns minutos na fila, um homem, por volta dos seus 60 anos parou atrás de mim, e junto com ele uma menina, com seus 19. Ela me chamou a atenção. Não por ser bonita, o que realmente não era, mas pela tristeza nos olhos. Era como se ela estivesse chorando e no entanto, nenhuma lágrima escorria. Parecia que a fonte havia secado de tanto chorar. E assim o homem a abraçou, e ficaram assim, parados.
De repente, a fila começou a andar. Muito lentamente. Entrava uma pessoa e a fila parava. Entrava mais uma e a fila parava. Minutos depois saía o primeiro e entrava o terceiro. Com um tempo, o caminhar da fila se tornou algo ritmado, e eu pude perceber que a tristeza que antes me chamou a atenção na possível neta do senhor de idade, estava presente nos olhares de todas aquelas pessoas. É muito ruim não saber o nome das pessoas que passam pela sua vida, e assim, elas se tornam números, possíveis netas e avôs, estátuas.
Aquilo me incomodou. Pensei se todo o motivo da minha curiosidade estava ligado ao fato de eu também ter a mesma tristeza nos olhos, e a curiosidade do porquê da fila, nada mais seria do que uma mentira para me juntar, ao que posso chamar, dos meus semelhantes. O pensamento me desnorteou. Eu não queria ser uma daquelas pessoas que esperam em filas o momento em que talvez encontrem respostas para suas aflições. Eu não queria ser mais um desconhecido em meio a estranhos imóveis. A solidão já é incômoda quando estamos realmente sozinhos, mas sentir esse desconforto em meio a um monte de gente é insuportável.
Percebi que a mulher que lia um livro com a mala gigante e pesada entrou. O décimo quinto estava saindo. Ao ver que era a minha hora de entrar na luz, me retirei. Deixei passar a possível neta com seu avô. E fui andando para frente. Sem olhar pra trás.
Desde então, nunca mais vi a fila que antes me incomodava.
amigo querido, que lindo!que baita escritor estas me saindo. tens que publicar muito e quem sabe um livro mesmo antes do filme longa..rs..bjs
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