quarta-feira, 28 de julho de 2010

O elevador

João mora em um prédio com 20 andares. Ele vive no décimo quinto. É um desses prédios com vários andares e 10 apartamentos por andar. O prédio é relativamente novo, e mesmo morando nele há 3 anos, a cada dia que passa ele sente-se como um novo morador. Os rostos das pessoas nunca são os mesmos. Ele sente falta de quando criança ter relacionamentos com vizinhos, conhecê-los bem, ter vizinhos que são amigos. Ele estava por ali, e por ali estavam os outros moradores, co-existindo em um mesmo ambiente. E foi nesse mesmo ambiente, em um dia de inverno qualquer, que a vida surpreendeu João.
Ele voltava de um encontro com alguns amigos. Ele estava leve, feliz, com a felicidade de quem sai de um encontro agradável, com pessoas agradaveis, e certo de que tem amigos para todo o sempre. Uma dessas felicidades em que um riso aparece nos lábios só de pensar na forma como fulano contou uma piada, ou cicrano ficou bêbado e te disse "Cara, você é foda!".
Absorto por esses pensamentos, a porta do elevador se abriu. João entrou, apertou o número quinze, e esperou que as portas se fechassem. Ao fundo ele ouviu o caminhar sôfrego de um salto alto. O "tac-tac" do salto o impulsionou a segurar a porta do elevador. Ele sabia que seria desumano fazer o salto alto esperar que ele fosse até o décimo quinto andar, para que a caixa de metal pudesse descer novamente, e assim levá-la onde quer que fosse. A mulher então apareceu. Entrou no elevador. Apertou o número 17. Olhou para João e disse "Boa noite". E a porta se fechou!
João nunca foi desses homens de conversar no elevador. Ele sempre achou inútil a tentativa. Nenhum assunto que começasse no térreo, terminaria a tempo do elevador chegar ao destino, a não ser falar sobre o frio ou o calor... "E esse calor hein? Parece que vai continuar quente assim até semana que vem". Plim. Chegou. "Tchau, tenha um bom dia".
Inútil.
Por isso, ao fecharem as portas do elevador, a mulher disse "Boa noite". E João respondeu educadamente "Boa noite".
No primeiro andar, a mulher tirou os óculos escuros que usava, e a estranheza do uso deles se explicou. Ela chorava. No momento em que os olhos vermelhos da mulher de salto alto cruzou com o olhar alegre de João, a mulher disse "Que dia horrível".
João não sabia o que fazer. Ele abaixou o olhar. Ainda faltavam 14 andares. Ele não conhecia a mulher. Tudo que ele sabia é que ela gostava de usar sapatos de salto alto, havia chorado e tivera um dia horrível. Qualquer palavra que lhe brotara na boca parecia ter saído de um livro de auto ajuda fajuto, desses que ninguém lê. O distanciamento muitas vezes nos impede de sermos mais humanos. João viu a solidão da mulher. O fato de alguém abordar um estranho no elevador e dizer que teve um dia horrível, nada mais é, do que uma tentativa de poder se abrir. Mas João não conseguia lidar com aquela situação, com aquela mulher à sua frente. Ele, que acabara de estar rodeado de amigos, certo de que poderia contar com qualquer um deles para qualquer coisa, até mesmo ligar ao final do dia para dizer "Que dia horrível!" e teria assim um ouvido para desabafar. E aquela mulher ali, com olhos de choro, querendo se abrir. Talvez ela não tivesse ninguém. Ou se tivesse, talvez não tinha abertura para falar.
A vontade de ajudar aquela mulher petrificou, diante de sua própria incapacidade de se abrir com os outros. A vulnerabilidade para João era uma maldição. E perceber essa maldição o tornava mau. Ele não queria ser mau. Não queria ser assim.
Plim. Décimo quinto. A porta se abriu.
João precisava se redimir pelos quatorze andares de silêncio externo que ele fez a mulher passar. porque internamente, foi uma gritaria. Ele precisava de uma redenção. Precisava ser bom outra vez.
"A senhora quer um abraço?" - Ele disse antes de sair do elevador.
"Não, está tudo bem. Não se preocupe. Obrigada."
João saiu. A porta se fechou. A mulher continuou seu caminho. João parou, pensou, e antes de entrar em casa, percebeu que talvez a mulher não fosse tão solitária quanto ele pensou. E que talvez, um simples comentário de um livro de auto ajuda fajuto, desses que ninguém lê, era o que ela precisava.

2 comentários:

  1. to cada vez gostando mais..tem certos momentos de suspense, tem um ritmo legal. pausas adequadas e muito imaginário presente. e tbem questões de solidão, relacionamento..amei mais este, viu? bjs e quero mais

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  2. Tô amando meu lindo!
    Vou continuar lendo!
    Parabéns!
    Os dois primeiros eu já tinha lido, não?

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