O quarto está escuro. Ele prefere assim. A única luz existente é a da tela de seu computador, que irrita um pouco os olhos, mas piscar, significa perder a noção do raciocínio por alguns milésimos. Ele prefere que a luz irrite os olhos a deixar que seus pensamentos sejam interrompidos por uma simples piscada de olhos, como se o movimento das pálpebras fosse algo tão racional quanto a escolha da roupa em que usar.
Ele gostava de escrever exatamente na madrugada. Era o momento em que ele considerava mágico. Todos dormiam a sua volta, a televisão enfim se calava, e o silêncio incômodo que todo o escritor precisa tornava-se real. Ele passava a noite em claro, escrevendo seus livros, seus contos, e suas cartas. Ele não acreditava muito no email, e sempre considerou que a expectativa de receber uma carta, tornava o conteúdo muito mais agradável, sincero e emotivo. Ele não recebia muitas cartas. Os agradecimentos e respostas sempre vinham por email.
E novamente, ao chegar a madruga, e depois de dar um beijo de boa noite em seu único filho, que ele adotara dois anos atrás, sentou-se na frente do computador para escrever. Ele lembrou então da familia, dos irmãos. Um mais velho e outro mais novo. Percebeu que não ligava para o irmão mais velho fazia 2 meses, e sabia também que o irmão mais novo estava com alguns problemas. Lembrou dos pais, quem tanto amava. Apesar de ainda lhe trazer lágrimas aos olhos, ele sabia que o divórcio foi a melhor opção, e que em algum momento no caminho da vida, os dois voltariam a sorrir, sem o embaraço e a incerteza de uma nova vida.
Ele pensou no cachorro da familia que morrera. Nos avós que também se foram.
Ele então, começou a escrever algumas palavras soltas em um pedaço de folha branca, e percebeu que não tinha inspiração para escrever naquela noite, e ainda assim, sem inspiração, desligou o computador com um texto pronto para ser enviado para o trabalho, e percebeu, que lá fora, a lua já estava se despedindo.
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