sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Entre uma dança e outra!

MARIANA (M) E FERNANDA (F) SÃO AMIGAS HÁ MUITO TEMPO. ELAS ACABARAM DE FUMAR UM BASEADO, COLOCARAM UMA MÚSICA ALTA E ANIMADA, E ESTÃO DANÇANDO E RINDO, CURTINDO A ONDA DELAS. ELAS CONVERSAM ALTO PARA QUE UMA POSSA OUVIR A OUTRA.

M - Eu não acredito que ele falou isso com você.

F - Eu to te falando amiga... Ele foi curto e grosso.

M - Que escroto. Oi meu amor, você é ótima, adorei te comer, mas agora quero conhecer outras mulheres.

F - Também não foi assim, mas foi isso que ele quis dizer... As entrelinhas estão ali.

M - Qual é o medo de homem com compromisso? Me deixa saber?

F - Se eu descobrir te conto!

M - Sabe o que eu queria agora?

F - O quê?

M - Ruffles com mostarda!

F - Não... Doritos com maionese!

M - Não... Mostarda com maiosene!

F - Não... Ruffles com doritos com mostarda e com maionese!

AS DUAS SE OLHAM, E RIEM DESCONTROLADAMENTE. ELAS CONTINUAM DANÇANDO.

F - Quando você era menor, e ainda não tinha beijado na boca, você praticava?

M - Como eu ia praticar se não tinha ninguém pra beijar?

F - Sei la, beijando a mão, a laranja, tentando pegar um gelo no copo de água com a língua, com uma amiga...

M - Ewwww, com uma mulher?

F - Porque ewww?

M - Sei la, é muito lésbico isso...

F - Não Não... Seria lésbico se você beijasse uma mulher com sentimento... Mas só pra praticar não quer dizer nada...

M - Isso é muito Sarah Michelle Gellar em “segundas intenções”... Não é pra mim.

F - Ai amiga, você é muito puritana...

M - Puritana eu? Quem foi que disse que não faz sexo anal porque acha nojento?

F - E quem foi que disse que não faz sexo na praia porque a areia fica entrando em lugares que não deve?

M - E quem foi que disse que nunca vai a uma casa de swing porque acha podre?

F - Mas isso é diferente, eu fui uma vez, e não gostei...

M - Amiga, você já beijou uma mulher mesmo?

F - Já... Uma vez eu acho!

M - E como foi?

F - Sei lá, foi um beijo...

M - E não foi estranho?

F - Estranho?

M - É...

F - Mas beijo é beijo... E ela beijava bem, se o beijo dela fosse ruim aí sim teria sido estranho!

M - Acho isso muito estranho!

F - Amiga eu não transei com ela não, foi um beijo e pronto.

FERNANDA SE APROXIMA DA AMIGA E LHE DÁ UM BEIJO NA BOCA. E LOGO SE AFASTAM.

M – É... Não...

F – Definitivamente não.

F - Já sei!

M - O quê?

F – Chantilly com doritos com ruffles com mostarda e com maionese!

M – Caraaaalho boto fé!

AS DUAS SAEM.
.FIM.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Reflexo.

Ela se olha no espelho e espera que o reflexo lhe dê um conselho plausível. Ela espera de um outro alguém um significado, uma resolução, e esquece de olhar para dentro de si. Por muitos anos abandonou o sentimento de amor próprio em função de uma outra pessoa. Esqueceu-se de como é amar-se. Valorizou o que achava confiável, sem entender que a maior confiança é a que existe sobre si mesma.
Ela chorou.
O reflexo no espelho tinha os olhos vermelhos de lágrimas feridas, sangrentas e amaldiçoadas. Saber o que deve fazer é substancialmente inferior a atitude que se deve tomar, mas pode ser um primeiro passo. Mas o primeiro passo é acreditar na sabedoria que brota na alma. Sem essa crença, ela continuava ali, em pé, parada na frente do espelho, nua, esperando.
Ela queria sair.
A conjulgação dos verbos em sua vida foram sempre assim, refletindo seu medo, e seu desejo momentâneo do querer. Ela não lembrava qual foi a última vez em que havia feito alguma coisa por ela. O que ela quis? Quais foram seus sonhos? Em que parte do caminho eles foram abandonados, e o pior, em que momento eles foram completamente esquecidos? Ela havia perdido o sentido de muitas coisas, mas sem o sentido de si, realmente fica dificil entrar nas portas que se abrem na vida.
Se ela tivesse que relatar sua vida para um terapeuta, ele diria que ela havia visto alguma novela mexicana, e sofria de algum disturbio de personalidade que a fazia acreditar que sua vida era a mesma das personagens na televisão. Mas ela tinha suas cicatrizes debaixo da pela clara.
Do quarto, ela pôde ouvir a chave entrando na fechadura da porta da sala. Seu corpo estremeceu. Ela olhou novamente para o espelho. Seus olhos continuavam com a dor pesada das lágrimas que caíam, ela já havia perdido a força para segurá-las dentro da alma. Seu olho direito ainda roxo, os cortes ainda molhados de sangue na boca, na testa e nos pulsos. Com os cabelos desgrenhados e hematomas espalhados pela barriga e pelas costas. O pulso enfaixado e com pontos cirúrgicos na coxa esquerda. Ela fechou a porta do guarda roupa. Seu marido entrou pela porta, abriu a sacola que tinha nas mãos, pegou um pão e jogou no chão.
"Pronto. Agora pode se alimentar. E o que aconteceu aqui, ninguém precisa saber. Até mais tarde" - e se retirou.
Ela se abaixou, pegou o pedaço de pão e comeu, sem saber quando comeria novamente.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um jornal de domingo

Assim começava todo o domingo para o jornal. Não que o de hoje seja o mesmo que aqui esteve semana passada. Talvez as coisas seriam mais fáceis se assim fosse, e a natureza certamente agradeceria. Mas eu, como narrador, me detenho apenas a contar a história deste jornal, que neste dia de domingo chuvoso, a exatamente 5:43 da manhã, estava disponível na banca de jornal, na esquina de uma rua movimentada do Rio de Janeiro. Apesar de estar tão cedo disponível para dividir conhecimento com algum transeunte que resolvesse comprar o tal jornal, ele só saiu da banca às 8:33 da manhã. Um senhor de idade, que todos os domingos pegava sua cadeira de praia, comprava seu jornal, ia para o aterro do flamengo, sentava, lia-o, conversava com um amigo ou outro que tinha o mesmo hábito, largava seu jornal perto de alguma lixeira por ali mesmo, e voltava para a casa antes do almoço que sua mulher havia cozinhado.
Naquele dia em especial, o senhor de idade se surpreendeu com as noticias que encontrou no jornal. Ele sabia da violência no país, e assim como ele, o jornal também se entristecia por ter que relatar histórias tão devastadoras e terríveis. Sim, todos sabem. Mas naquele dia, as noticias lhe saltavam aos olhos. Um menino de três anos havia sido arrastado no asfalto por quilômetros preso ao cinto de segurança durante um assalto à mão armada. Uma menina de cinco anos havia sido jogada pela janela do décimo andar de um prédio pelos próprios pais. Um menino de quinze anos havia perdido a vida, atropelado na calçada por um carro que estava praticando pega. Uma senhora chorava a perda do filho de sete anos, que morreu dentro da sala de aula por motivo de bala perdida... As noticias seguiam, e as crianças do Brasil iam sumindo diante dos olhos do senhor de idade. Ele não pôde deixar de pensar no futuro do país, e no que seria das próximas gerações. Ele pensou em como era bom nos tempos em que era criança, e brincava nas ruas, e acreditava na bondade da humanidade. Ele estava descrente e por um momento, agradeceu silenciosamente a Deus por estar tão próximo da morte. O inferno realmente é aqui, pensou o senhor de idade.
Ele tentou mudar o assunto. Procurou ler sobre cultura, leu uma reportagem que falava do poder do cinema indiano, leu sobre um artista plástico que viria expor suas pinturas no Brasil e sobre um músico muito importante que falecera vitima de um ataque cardíaco fulminante. Ele pensou em como seria bom poder morrer dormindo.
Ainda tentando esquecer as tragédias lidas anteriormente, o senhor leu alguns classificados. Alguns apartamentos à venda na tijuca... Como era bom morar na tijuca pensou o velho saudosista. Os preços, entretanto, doíam, só de olhar...
A hora passou, e o senhor de idade, com uma certa dificuldade, arrumou-se para voltar para a casa. Como de costume, deixou seu jornal próximo a um lixo que existia perto de onde estava sentado. Ele sempre pensava que, talvez alguém que não tivesse condições de comprar um jornal, poderia pegar ali o jornal dele e ler as noticias. Assim, o conhecimento continuaria seguindo seu rumo, e não terminaria nele. Era uma forma de olhar a vida!
Ele voltou para a casa, ao encontro de sua mulher que o esperava com um almoço gostoso. Ao abraçar a mulher, as coisas pareceram mais fáceis. Ele sentiu o conforto do abraço, a calma da casa, o sabor da mulher. O dia passou rápido. Ao deitar, o senhor de idade se cobriu com seu edredão, o frio realmente piorou desde a hora que havia sentado no aterro do flamengo para ler seu jornal. Ele agradeceu a vida. Ele sempre agradecia. E dormiu.
Do outro lado da rua, sem o conhecimento do senhor de idade, um menino de rua também se preparava para dormir. Ele deitou em cima de uma grande folha de papelão, e com uns jornais se cobriu do frio que fazia na noite. Antes de fechar os olhos, o menino que não tinha mãe, nem pai, nem mulher, nem sonhos, agradeceu a Deus, porque hoje, alguém deixou um jornal na beirada de um lixo no aterro do flamengo. Ele sempre agradecia. E dormiu.