sábado, 31 de julho de 2010

No domingo.

O sol entrava pela janela do meu quarto me convidando para sair, espairecer a mente, relaxar após um final de semana. Domingo é o dia de descanso por um grande motivo: Vem depois do Sábado. A verdade é que eu só tive força para sair de casa depois das três horas da tarde.
Comprei meu jornal. Eu sou um leitor que acompanha as notícias do brasil e do mundo pelos jornais de domingo, e fui para a praia. Eu sempre gostei de relaxar na praia, ver o mar, as pessoas saudáveis, o caminhar das mulheres de biquini. E consequentemente ler meu jornal. Confesso que as noticias se perdem no emaranhado de acontecimentos, e nesse domingo, foi especial.
Ao chegar no calçadão da praia do aterro do flamengo, procurei uma sombra confortável onde eu pudesse colocar minha cadeira. Sentei. Arrumei-me. Abri meu jornal, e comecei a ler. A brisa refrescava ainda mais a sombra que eu tinha escolhido, e o calor não me incomodava.
No momento em que comecei a ler as notícias, reparei em Dona Marta. Ela era uma mulher gorda, suas roupas eram largas, e sua maneira de se posicionar era completamente espalhafatosa. Ela não só falava extremamente alto, como gesticulava fora do normal, deixava suas coisas completamente espalhadas, e cumprimentava todos que passavam. Ou melhor, todos que tinham cachorros.
Ela estava lá com seu melhor amigo. Eventualmente, eu descobri que o nome dele era Jonny. Assim como descobri que seu nome era Marta. É incrível as coisas que você descobre de uma pessoa se parar para prestar atenção. Dona Marta vivia sozinha e Jonny era seu melhor amigo. Não de uma maneira simpática de chamar o animal, mas realmente o melhor amigo. Jonny havia ficado doente alguns dias atrás, e foi preciso dar a ele soro na veia. Ele ficou internado por dois dias. Jonny gostava de brincar com um boneco que era da filha de Dona Marta. Ele também tinha horários para comer, e naquele momento, era hora. Ela tirou a comida dele de dentro de uma bolsa gigante que ela carregava, abriu o pote e colocou ao alcance do animal. Jonny comeu com uma voracidade incrível.
Enquanto Dona Marta esperava seu amigo comer, ela conversava com uma, elogiava o cachorro da outra, e assim que esta ia embora, falava para uma amiga que o Jonny era mais bonito. Ela inclusive, comprou coca cola para o bichinho beber, simplesmente porque era domingo e ele podia estrapolar.
Eu não saberia dizer se ela conhecia realmente todo mundo que passava naquele calçadão, ou se apenas era do seu feitio fazer amizade facilmente com todos que passavam. Mas assim ela ficava, falando com um, brincando com outro, preocupada com Jonny. O incrível, é que em todos os assuntos, ela começava falando: "Mas aí o Jonny...", "O Jonny faz isso",... "O Jonny aquilo"...
Ele era o astro e como se soubesse disso, se impunha hora latindo para outro cachorro, hora sentado na pose mais ereta possivel.
Eu nem percebi quando o relógio mostrava que eram cinco horas da tarde. Eu apenas me dei conta porque Dona Marta, esperta que só ela, sabia que nos domingos, as seis horas, Jonny gostava de ver televisão. Era algum canal de desenhos que Jonny adorava, e se não visse, ficava de mau humor! E assim, Dona Marta se despediu de alguns amigos. Recém conhecidos ou não, ela os abraçou, deu três beijinhos e disse "Até domingo que vem!".
Eu não pude deixar de pensar sobre Dona Marta no caminho para a casa. Se eu talvez fosse um narrador omnisciente, talvez eu relataria sua chegada em casa, com poucos móveis, a cama do Jonny arrumada, as coisas dele meticulosamente arrumadas em um armário especial para o cachorro. Diria ainda que assim que chegou em casa, Dona Marta ligou a televisão, colocou Jonny no sofá com um cobertor para deixá-lo bem quentinho, e colocou no canal de desenho. Perguntou ao amigo se estava confortável e sabiamente recebeu como resposta um sim. Dona Marta então veria o desenho, esperaria Jonny dormir para levá-lo para a cama, e deitaria, à espera do dia seguinte, onde teria que acordar bem cedo para levar o seu melhor amigo para passear.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O elevador

João mora em um prédio com 20 andares. Ele vive no décimo quinto. É um desses prédios com vários andares e 10 apartamentos por andar. O prédio é relativamente novo, e mesmo morando nele há 3 anos, a cada dia que passa ele sente-se como um novo morador. Os rostos das pessoas nunca são os mesmos. Ele sente falta de quando criança ter relacionamentos com vizinhos, conhecê-los bem, ter vizinhos que são amigos. Ele estava por ali, e por ali estavam os outros moradores, co-existindo em um mesmo ambiente. E foi nesse mesmo ambiente, em um dia de inverno qualquer, que a vida surpreendeu João.
Ele voltava de um encontro com alguns amigos. Ele estava leve, feliz, com a felicidade de quem sai de um encontro agradável, com pessoas agradaveis, e certo de que tem amigos para todo o sempre. Uma dessas felicidades em que um riso aparece nos lábios só de pensar na forma como fulano contou uma piada, ou cicrano ficou bêbado e te disse "Cara, você é foda!".
Absorto por esses pensamentos, a porta do elevador se abriu. João entrou, apertou o número quinze, e esperou que as portas se fechassem. Ao fundo ele ouviu o caminhar sôfrego de um salto alto. O "tac-tac" do salto o impulsionou a segurar a porta do elevador. Ele sabia que seria desumano fazer o salto alto esperar que ele fosse até o décimo quinto andar, para que a caixa de metal pudesse descer novamente, e assim levá-la onde quer que fosse. A mulher então apareceu. Entrou no elevador. Apertou o número 17. Olhou para João e disse "Boa noite". E a porta se fechou!
João nunca foi desses homens de conversar no elevador. Ele sempre achou inútil a tentativa. Nenhum assunto que começasse no térreo, terminaria a tempo do elevador chegar ao destino, a não ser falar sobre o frio ou o calor... "E esse calor hein? Parece que vai continuar quente assim até semana que vem". Plim. Chegou. "Tchau, tenha um bom dia".
Inútil.
Por isso, ao fecharem as portas do elevador, a mulher disse "Boa noite". E João respondeu educadamente "Boa noite".
No primeiro andar, a mulher tirou os óculos escuros que usava, e a estranheza do uso deles se explicou. Ela chorava. No momento em que os olhos vermelhos da mulher de salto alto cruzou com o olhar alegre de João, a mulher disse "Que dia horrível".
João não sabia o que fazer. Ele abaixou o olhar. Ainda faltavam 14 andares. Ele não conhecia a mulher. Tudo que ele sabia é que ela gostava de usar sapatos de salto alto, havia chorado e tivera um dia horrível. Qualquer palavra que lhe brotara na boca parecia ter saído de um livro de auto ajuda fajuto, desses que ninguém lê. O distanciamento muitas vezes nos impede de sermos mais humanos. João viu a solidão da mulher. O fato de alguém abordar um estranho no elevador e dizer que teve um dia horrível, nada mais é, do que uma tentativa de poder se abrir. Mas João não conseguia lidar com aquela situação, com aquela mulher à sua frente. Ele, que acabara de estar rodeado de amigos, certo de que poderia contar com qualquer um deles para qualquer coisa, até mesmo ligar ao final do dia para dizer "Que dia horrível!" e teria assim um ouvido para desabafar. E aquela mulher ali, com olhos de choro, querendo se abrir. Talvez ela não tivesse ninguém. Ou se tivesse, talvez não tinha abertura para falar.
A vontade de ajudar aquela mulher petrificou, diante de sua própria incapacidade de se abrir com os outros. A vulnerabilidade para João era uma maldição. E perceber essa maldição o tornava mau. Ele não queria ser mau. Não queria ser assim.
Plim. Décimo quinto. A porta se abriu.
João precisava se redimir pelos quatorze andares de silêncio externo que ele fez a mulher passar. porque internamente, foi uma gritaria. Ele precisava de uma redenção. Precisava ser bom outra vez.
"A senhora quer um abraço?" - Ele disse antes de sair do elevador.
"Não, está tudo bem. Não se preocupe. Obrigada."
João saiu. A porta se fechou. A mulher continuou seu caminho. João parou, pensou, e antes de entrar em casa, percebeu que talvez a mulher não fosse tão solitária quanto ele pensou. E que talvez, um simples comentário de um livro de auto ajuda fajuto, desses que ninguém lê, era o que ela precisava.

Um caso moderno

O inicio foi diferente dos contos amorosos que ouvimos por aí, ou que lemos em livros e vemos pela televisão. Não existiu uma troca de olhares, uma música lenta, um frenesi alucinante de quem vê pela primeira vez o amor de sua vida. As coisas foram mais modernas do que podemos imaginar.
O primeiro contato deles foi algo singelo. Sem grandes diálogos marcantes, conversas inteligentes e frases de impactos. Não houve uma troca de telefones, e o contato se seguiu pela internet. Ele a adicionou no facebook, no orkut e no msn. As conversas inicialmente eram estranhas para ela. Ela é uma dessas meninas que sempre tem o homem que quer, e poder escolher a dedo o que realmente quer, é um privilégio de poucas, mas que ela agradecia diariamente. Mas ele insistiu.
A convidou para uma festa, ela negou. Um samba na lapa e ela negou. Um cinema e ela mentiu dizendo que já havia visto o filme. Certo dia, eles se encontraram, como que por acaso, em uma boate na zona sul do Rio de Janeiro. Quando a gente fala que o mundo é pequeno, é porque ele realmente é... Para aqueles que procuram!
Ele a rondou a noite toda. Pediu. Implorou. Insistiu. E novamente fazendo uso de frases de efeitos que, eu sei, são clichês muito grandes, ele a venceu pelo cansaço. Nada muito marcante. Mas ficou. Ele adorou. Continuou sua insistência. O carinho e afeto do primeiro encontro, aumentou com o passar do tempo, e com isso, ele não conseguia mais ficar sem pensar nela. E assim ficaram, por um tempo. Ele insistindo, ela fugindo.
O sim, para um cinema, surgiu um mês depois do primeiro beijo. Ela estava carente, e ele, todo atencioso, soube aproveitar o momento. Depois disso, os encontros foram aumentando, o carinho dele por ela se tornou recíproco, e eles começaram a namorar. Ah... O amor tem esse poder sobre as pessoas...
Durou um ano e meio. Ela ama. De verdade.
Ele também ama, mas não a ela.
Hoje, quem chora a perda é ela, enquanto ele, segue a vida, com uma outra mulher, feliz da vida, e sem ela entre os seus amigos do facebook ou msn.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A fila.

Na rua onde eu moro, em determinada hora do dia, geralmente quando já é noite, começa a se formar uma fila em frente a um portão de uma casa. Esse acontecimento sempre me intrigou. Não existe um letreiro, propaganda, tumulto, absolutamente nada. São pessoas em fila, quietas, tranquilas, algumas lendo um livro, outras conversando no celular em tom absurdamente baixo, outras apenas ali, paradas, imóveis. Por muitas vezes, ao caminhar por ali, eu pensei em parar e perguntar a alguma daquelas estátuas o porquê da fila. Mas sabe essas barreiras invisiveis que se criam? Era como aquela fila. Não existia uma abertura para tal pergunta, assim como aparentemente, não existia abertura para um desconhecido entrar nela.
Movido por uma força maior do que a minha própria razão e por um sentimento de desconforto, mais conhecido como curiosidade, certa noite, ao passar por aquele lugar, parei atrás de uma senhora que lia um livro. À sua frente havia uma mala grande, visivelmente pesada pela forma irregular com que a mala se firmava no chão. E fiquei ali. Imóvel. Assim como todos os outros.
Após alguns minutos na fila, um homem, por volta dos seus 60 anos parou atrás de mim, e junto com ele uma menina, com seus 19. Ela me chamou a atenção. Não por ser bonita, o que realmente não era, mas pela tristeza nos olhos. Era como se ela estivesse chorando e no entanto, nenhuma lágrima escorria. Parecia que a fonte havia secado de tanto chorar. E assim o homem a abraçou, e ficaram assim, parados.
De repente, a fila começou a andar. Muito lentamente. Entrava uma pessoa e a fila parava. Entrava mais uma e a fila parava. Minutos depois saía o primeiro e entrava o terceiro. Com um tempo, o caminhar da fila se tornou algo ritmado, e eu pude perceber que a tristeza que antes me chamou a atenção na possível neta do senhor de idade, estava presente nos olhares de todas aquelas pessoas. É muito ruim não saber o nome das pessoas que passam pela sua vida, e assim, elas se tornam números, possíveis netas e avôs, estátuas.
Aquilo me incomodou. Pensei se todo o motivo da minha curiosidade estava ligado ao fato de eu também ter a mesma tristeza nos olhos, e a curiosidade do porquê da fila, nada mais seria do que uma mentira para me juntar, ao que posso chamar, dos meus semelhantes. O pensamento me desnorteou. Eu não queria ser uma daquelas pessoas que esperam em filas o momento em que talvez encontrem respostas para suas aflições. Eu não queria ser mais um desconhecido em meio a estranhos imóveis. A solidão já é incômoda quando estamos realmente sozinhos, mas sentir esse desconforto em meio a um monte de gente é insuportável.
Percebi que a mulher que lia um livro com a mala gigante e pesada entrou. O décimo quinto estava saindo. Ao ver que era a minha hora de entrar na luz, me retirei. Deixei passar a possível neta com seu avô. E fui andando para frente. Sem olhar pra trás.
Desde então, nunca mais vi a fila que antes me incomodava.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

E se a vida fosse um filme?

Eu tenho esse costume rotineiro de alimentar teorias e viver elas por um momento. Permito-me deixar a imaginação fluir de tal modo, que ás vezes demoro em voltar a realidade. E em uma dessas divagações, pensei em como seria se a vida fosse como um filme.
Eu levantaria com a cara limpa, sem remela, sem bafo matinal, sem mau humor e sem problemas. O quarto estaria sempre escuro, eu abriria as janelas e o sol entraria. Todas as manhãs pareceriam um dia comum de domingo. Eu não perderia tempo me arrumando, porque no próximo corte eu já estaria no meu destino. No trabalho, no final do exercício físico completamente suado, no final de uma conversa chata, no inicio de um momento agradável e inesquecível...
Eu teria música. O som subiria nos momentos mais propícios e assim eu nunca ficaria sozinho. No primeiro beijo a música seria romântica, nos momentos felizes ela seria animada, nos tristes melancólica, no cotidiano uma dessas músicas agradáveis de se ouvir que te dão ânimo de caminhar por horas e horas...
Eu sempre teria assunto. Os momentos, por mais embaraçosos que parecessem, seriam salvos, ou por mim, ou por alguém. Quer seja um amigo que chegaria no momento certo, quer seja um estranho que faria alguma coisa que distraísse a atenção para aquele momento inoportuno...
Os encontros seriam geniais. Não digo nem geniais porque seriam bons... Porque sim, encontros ruins também acontecessem em filmes, mas mesmo assim, no final das contas, tudo dá certo, e eu terminaria com a mocinha, de braços dados, caminhando para o pôr-do-sol...
Apesar de tantos pontos positivos, não pude deixar de pensar mais, e perceber, que eu não teria a felicidade. O meu final feliz terminaria antes de realmente acontecer. Os finais felizes são sempre interrompidos por créditos, ou citados de alguma maneira superficial.
E mesmo com alguns clichês cinematográficos, aparentemente atraentes e “reais”, a verdade, é que a vida é a vida. Ficcioná-la é um simples ato de criatividade e imaginação.

À quem possa interessar...

Querido Alguém,


Hoje eu resolvi vir a seu encontro. Ouvi suas lágrimas de solidão no canto escuro do quarto. Eu venho assim, por vontade própria... Não tente me chamar e nem tente se desfazer de mim quando se cansar. Eu venho apenas para te mostrar a importancia e a força do amor.
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Não precisa chorar, mas se isso te acalmar a alma, que chore o tempo que precisar. Não alimente as tristezas e os sentimentos ruins. A vida é feita de escolhas. Para cada sim existe um não. Tome as melhores decisões, mas não lamente as precipitadas ou erradas, cabe a você mudar a sua situação. Lembre que o hoje é um resultado do sim, ou não de ontem.
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Eu não estou aqui para te fazer chorar, ou entristecer-te. Sorria. Sorria com toda a força que puder. Sorria sempre. Abrace mais. Ame... Mas tenha fé. No que quer que seja. Apenas acredite em algo. Em alguém. Se eu te pressionar muito, e o seu sorriso se dissipar, você terá pra onde correr. Aonde se apoiar. Seja bom!
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Eu não sou sábio. Nem culto. Eu não entendo as complexidades humanas. Eu conheço o poder do amor, mas confesso que nao o entendo muitas vezes. A verdade é que não adianta querer racionalizar tudo. Algumas coisas foram feitas para serem sentidas.
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Saia mais. Espairecer a mente é uma ótima tentativa de me mandar embora. Pelo menos, uma ótima forma de ilusão. Mas isso já é uma coisa boa. Acredite.
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Seja sempre você. Seja verdadeiro e honesto. Afinal, quando a cabeça encostar no travesseiro, é você com você mesmo, é aí que a verdade sempre virá a tona, e é aí que ela faz mais estragos, ou maravilhas... Depende de quem você é!
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Os meus conselhos não passam de palavras tagarelantes. Me ouça. Ou Não. Quer queira, quer não, eu estarei diariamente do seu lado. Faça o que você achar melhor. Como eu já disse, a vida é feita de escolhas...



Assinado: SAUDADE