... E ao acordar, encontrei essa carta.
Querido Fernando,
Eu não saberia por onde começar. Penso que o fim muitas vezes pode ser o inicio de alguma coisa nova, muito maior do que esperávamos. Não quero fazer desse meu último contato, uma carta de amor, um saudosismo qualquer de uma relação duradoura. Vivemos. Choramos, rimos, brigamos, amamos. Eu acredito que o fim é sempre invitável, independente da forma que seja.
Eu nunca menti quando disse Te amo. Nunca fingi um orgasmo. Nunca falei nada apenas para te agradar. Nunca me anulei. A sinceridade sempre foi o forte do nosso relacionamento, e a nossa cumplicidade sempre foi invejada por muitos.
Acho que estou enrolando. Enrolo-me com as palavras e fico perdida nos meus próprios pensamentos. Escrever essas palavras me dói mais do que imaginei que pudesse machucar.
Pode me chamar de convarde. Eu aceito que sou. Concordo até. Mas assim é melhor. Melhor pra mim eu sei. O egoísmo sempre foi um dos meus pontos fracos.
O que acontece... É que o amor acabou. Enquanto o amor é forte, a gente passa por cima de qualque defeito, qualquer constrangimento. É perturbador pensar que sem o amor as pessoas se tornam exclusivamente humanas. Eu choro ao imaginar que um dia você para mim foi um Deus, sem defeitos, e que eu para você talvez ainda seja. Por isso a minha covardia. Eu não conseguiria ver em seus olhos, as lágrimas de quem ainda não deixou de amar.
Não existe outro amor. Outro homem. Outro pau. Existiu você por muito tempo, até que não existiu mais. A incoerência nas minhas palavras, nada mais é, do que um reflexo da incoêrencia dos meus sentimentos e do tempo que ando pensando sobre esse assunto.
O tempo pode fazer com que você me perdoe. Ou não. As pessoas valorizam de mais o tempo, como se ele fosse um mecanismo de defesa, uma fuga para aqueles momentos em que não temos respostas. É uma forma de confortar, e confesso, foi o que tentei fazer. Mas não posso querer te abraçar nesse momento. Seria muito cruel da minha parte.
Eu espero que você fique bem. Espero que a gente se encontre pela vida, espontaneamente, e quem sabe, com o tempo, eu consiga explicar melhor o porquê de tanto desamor assim, tão abruptamente. É... as vezes até eu mesma me rendo ao tempo.
Um beijo
Luisa.
... E enquanto relia a carta, percebi algumas gotas de lágrima no papel.