quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Uma carta ao acordar.

... E ao acordar, encontrei essa carta.
Querido Fernando,
Eu não saberia por onde começar. Penso que o fim muitas vezes pode ser o inicio de alguma coisa nova, muito maior do que esperávamos. Não quero fazer desse meu último contato, uma carta de amor, um saudosismo qualquer de uma relação duradoura. Vivemos. Choramos, rimos, brigamos, amamos. Eu acredito que o fim é sempre invitável, independente da forma que seja.
Eu nunca menti quando disse Te amo. Nunca fingi um orgasmo. Nunca falei nada apenas para te agradar. Nunca me anulei. A sinceridade sempre foi o forte do nosso relacionamento, e a nossa cumplicidade sempre foi invejada por muitos.
Acho que estou enrolando. Enrolo-me com as palavras e fico perdida nos meus próprios pensamentos. Escrever essas palavras me dói mais do que imaginei que pudesse machucar.
Pode me chamar de convarde. Eu aceito que sou. Concordo até. Mas assim é melhor. Melhor pra mim eu sei. O egoísmo sempre foi um dos meus pontos fracos.
O que acontece... É que o amor acabou. Enquanto o amor é forte, a gente passa por cima de qualque defeito, qualquer constrangimento. É perturbador pensar que sem o amor as pessoas se tornam exclusivamente humanas. Eu choro ao imaginar que um dia você para mim foi um Deus, sem defeitos, e que eu para você talvez ainda seja. Por isso a minha covardia. Eu não conseguiria ver em seus olhos, as lágrimas de quem ainda não deixou de amar.
Não existe outro amor. Outro homem. Outro pau. Existiu você por muito tempo, até que não existiu mais. A incoerência nas minhas palavras, nada mais é, do que um reflexo da incoêrencia dos meus sentimentos e do tempo que ando pensando sobre esse assunto.
O tempo pode fazer com que você me perdoe. Ou não. As pessoas valorizam de mais o tempo, como se ele fosse um mecanismo de defesa, uma fuga para aqueles momentos em que não temos respostas. É uma forma de confortar, e confesso, foi o que tentei fazer. Mas não posso querer te abraçar nesse momento. Seria muito cruel da minha parte.
Eu espero que você fique bem. Espero que a gente se encontre pela vida, espontaneamente, e quem sabe, com o tempo, eu consiga explicar melhor o porquê de tanto desamor assim, tão abruptamente. É... as vezes até eu mesma me rendo ao tempo.
Um beijo
Luisa.
... E enquanto relia a carta, percebi algumas gotas de lágrima no papel.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Monólogos (1)

O pedido dele foi muito simples. Suas palavras saíram de forma conformada e acomodada. Talvez essa comodidade que tenha me espantado tanto. Ou, talvez tenha sido a minha própria comodidade com a relação que construímos com 20 anos de casado. É muito tempo tendo alguém do lado, compartilhando os momentos, pra simplesmente...

Há dez anos ele luta contra o câncer. Quimioterapia, radioterapia, cirurgias intermináveis, sofrimento, dor... Esperança. Semana passada a gente foi ao médico pra fazer alguns exames de rotina. A notícia não poderia ter sido pior. O câncer voltou. O diagnostico foi o suficiente pra tirar dele todo o sopro de vida que ele conquistou com o passar dos anos. Eu pude ver seu sorriso lindo se dissipar do rosto. E se eu tivesse um espelho na minha frente, talvez teria visto o meu.
A gente chegou em casa. Eu chorei escondida no banheiro, enquanto deixei a torneira aberta. Eu não posso deixa-lo triste. Não agora. Eu saí. Entrei no quarto. Ele olhava um ponto fixo no teto. Seus olhos estavam sem vida, sem lágrima, sem dor. Eu perguntei se ele queria beber alguma coisa. Se estava com fome. Se queria dar uma volta, olhar o mar. Ele negava sempre, sem precisar fazer nenhum movimento. Em um ato egoísta, que só existe naqueles que verdadeiramente amam, eu perguntei o que ele queria fazer. Qualquer coisa, para mim, seria melhor do que olhar o teto fixamente. Ele me olhou, sentou na cama e disse. Morrer.

E aí eu percebi, que esperar a morte, é pior do que lutar contra ela.