Silvana tem 40 anos. É uma mulher vaidosa, dentro de um equilibrio já esquecido do que a vaidade é. Ela está casada há 21 anos com José Carlos. Um homem trabalhador, que para manter o padrão de vida que eles levam, precisa trabalhar muito. Está sempre em viagens, reuniões, negócios, planilhas, excel, word, computador, internet, vídeo conferência... Um stress virtual que Silvana nunca conseguiu muito entender, mas ao perceber que estava passando muito tempo longe do marido, resolveu se interessar pelas facilidades que o mundo virtual disponibiliza. Poder falar, escrever, ver a pessoa em tempo real, à distância de um clique, a fascinou. Não que ela não entendesse absolutamente nada dos últimos avanços tecnológicos, mas a verdade, é que a futilidade nas conversas com as amigas a impedia muitas vezes de conhecer melhor as coisas. Quando estamos inseridos em um sistema qualquer, é preciso primeiro abrir os olhos para que a mudança aconteça. E foi assim que Silvana começou a se separar de suas amigas fabricadas por cirurgiões e passou a se interessar mais por outras coisas na vida.
Foi a partir dessa mudança, das descobertas do mundo virtual, das fantasias sexuais abandonadas e do casamento se tornando cada vez mais um convívio minimizado de beijos sem calor e abraços sem suor, que o marido de Silvana a propôs: Vamos tentar o sexo virtual!
Ela não entendeu. José Carlos pacientemente a explicou como as coisas funcionavam. Silvana rebateu dizendo que tudo não passava de uma masturbação, e isso ela pode fazer debaixo do chuveiro, sozinha, pensando em Antônio Fagundes (Ela tinha uma queda por Antônio Fagundes difícil de explicar). José Carlos tentou. Explicou. Desenhou. Respondeu. Mas nada adiantou.
José Carlos viajou, e devido a algumas complicações foi obrigado a ficar na cidade mais tempo do que desejava. E assim tinha dito a Silvana. Mas eu estou com saudades, dizia a mulher com tom carinhoso e solitário. Eu também.
Os dias passaram, e por incrível que pareça, os encontros de Silvana com o chuverinho do banheiro pensando em Antônio Fagundes não estavam mais surtindo efeito. Foi pensando no próprio marido, certa noite, que ao entrar na internet e encontrá-lo on line, em um programa de mensagens instântaneas Silvana disse: Vamos tentar o tal sexo virtual?
José Carlos respondeu um SIM com uma quantidade de Is incontáveis. Silvana ainda achava o máximo as tentativas de expressar alegria ou qualquer outro sentimento através de palavras no mundo virtual. E assim começaram.
Ela não sabia por onde começar. Pediu para que o marido falasse alguma coisa. Ele começou dizendo que os dois estavam em uma cabana, na beira do mar, em uma ilha deserta, com a brisa batendo nos seus corpos nus. Silvana logo pensou na quantidade de mosquitos que possivelmente teria naquela ilha deserta, e disse para ela mesma, que por favor, eles não tentassem nada na areia. Ela nunca aceitou muito bem o sexo na areia da praia como algo bom, aquela areia entrando em lugares que não deveriam... E José Carlos propôs que eles deitassem na areia e começassem a se beijar.
Silvana embarcou, mesmo não gostando da idéia. Mas tudo não passava de um grande jogo de imaginação. Talvez a areia dessa praia não tivesse vida própria e ficaria lá. Na praia mesmo. E não dentro dela.
O diálogo continuou. José Carlos disse que já estava com o pau duro, para fora da calça e perguntou a Silvana se ela também estava nua, com a mão em sua buceta. Silvana nunca gostou dessa palavra. Por algum motivo que ela nunca compreendeu "buceta" a deixava um pouco enfurecida. Ela se sentia rebaixada a uma puta que pagaram 10 reais para fuder, e que a tratavam de maneira grossa e estúpida, e ela tinha que aceitar. Ela ficou um pouco nervosa quando seu marido usou a palavra. Mas por um momento tentou entender, e percebeu que se ele estivesse escrito vulva, ou piriquita, todo o clima de sexo teria ido por água abaixo. Ela mentiu. Ela estava completamente vestida, mas disse que sim. Ela já havia mentido algumas outras vezes sobre ter alcançado o orgasmo durante o sexo, e uma mentirinha a mais não faria mal. Ela queria saber até aonde aquela brincadeira ia. E queria saber se ela se permitiria chegar aonde seu marido estava propondo ir.
O papo continou. E conforme as linhas da caixa de diálogos na tela do computador iam aumentando, Silvana se interessou pela coisa. Foi se deixando levar. Subiu um calor em seu corpo, um calor que nem mesmo os pensamentos em Antonio Fagundes lhe davam. Foi aí que ela pensou que talvez seria agrádavel tirar a roupa, ficar nua, e se masturbar, na frente da tela do computador, lendo todas as coisas que seu marido estava dizendo. Ela se despiu. Sentou na frente do computador e foi ler a última coisa que seu marido havia dito: Gozei. E você?
Silvana mentiu. Uma mentirinha a mais não faria diferença, pensou ela. Ela caminhou até o banheiro. Dessa vez pensou no marido. Pensou em como talvez para ele teria sido ótimo a primeira vez dos dois à distância. E depois pensou, assim como a primeira vez física para ela também não havia sido boa, talvez as próximas virtuais seriam.